Rio azul

31 agosto 2005

Vê gigantes? São gigantes.

D. Quixote. Pablo Picasso «Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.»


(António Gedeão, Impressão digital, em Poesias Completas)

Relógio de sol (1)

Relógio de sol. Foto do autor
(Óbidos)

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29 agosto 2005

Antonio Torres Heredia

Antonio Torres Heredia,
hijo y nieto de Camborios,
con una vara de mimbre
va a Sevilla a ver los toros.
Moreno de verde luna
anda despacio y garboso.
Sus empavonados bucles
le brillan entre los ojos.
A la mitad del camino
cortó limones redondos,
y los fue tirando al agua
hasta que la puso de oro.
Y a la mitad del camino,
bajo las ramas de un olmo,
guardia civil caminera
lo llevó codo con codo.

El día se va despacio,
la tarde colgada a un hombro,
dando una larga torera
sobre el mar y los arroyos.
Las aceitunas aguardan
la noche de capricornio
y una corta brisa, ecuestre,
salta los montes de plomo.
Antonio Torres Heredia,
hijo y nieto de Camborios,
vienes sin vara de mimbre
entre los cinco tricornios.

(Federico Garcia Lorca)

Azulejo (6)

Azulejos. Foto do autor

(Vila Franca de Xira: Estação de caminhos de ferro)

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25 agosto 2005

Marcas (3)

Porta. Foto do autor

(Setúbal: Igreja de Santa Maria da Graça. Porta principal)

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Macroscópio (4)

Cabos. Foto do autor

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24 agosto 2005

Descoberta das ilhas

«Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas:
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas.

E as coisas mergulhadas no sem-nome
Da sua própria ausência regressadas
Um por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas.»

(Sophia)

Vermelho sobre azul

Farol. Foto do autor

(Cabo de S. Vicente)

23 agosto 2005

Marcas (2)

Azulejo. Jorge Colaço. Foto do autor


(Estação da CP de Vila Franca de Xira)

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22 agosto 2005

Rios

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(Alberto Caeiro)

Olhar

Rio Sado. Foto do autor

(Rio Sado: um olhar)



03 agosto 2005

Macroscópio (3)

Ilha do Pico: Açores. Foto do autor

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O vento levará os mil cansaços

«Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.»

(Sophia)

Olhar de perto

Empedrado. Horta. Foto do autor
(Horta: Açores)

01 agosto 2005

Leitura

«Quando no pinhal começavam a ler livros, estendidas nos cobertores de listas ou de quadrados, ampliava-se o silêncio das árvores, das outras plantas e os insectos redobravam o permanente silvo – as cigarras.
O chão estava muitas vezes seco e duro e as plantas amoleciam ainda verdes e molhadas na manhã. Liam umas vezes com muito entusiasmo e outras vezes com um grande tédio, como se cumprissem um destino marcado por alguém. Liam como um dever sagrado muitas vezes sem compreender como se perdiam as guerras, em que momento começava o grande amor e a idade da personagem principal.»

(Eduarda Dionísio)
Retrato de um amigo enquanto falo.